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Camming: Evite exposição gratuita da sua imagem

Atualizado: 26 de Dez de 2020

Por Drª Priscila Magossi (PUC-SP)



Neste artigo, a NCP (New Camming Perspective) explica como o preço de determinado serviço é estabelecido pelo mercado, e porquê você deve evitar ao máximo exposição gratuita da sua imagem.


Vale pontuar que esses tópicos muito provavelmente não serão apresentados por uma campanha de marketing, pois o interesse de uma empresa é gerar lucro imediato para os dono da empresa, e não se preocupar com o futuro dos indivíduos que escolhem, voluntariamente, prestar serviços à empresa.



O que é demanda efetiva?


Demanda efetiva é a média matemática de quanto o mercado está disposto a pagar por um produto (SMITH, 2010). Em relação ao camming: quanto mais exclusivo for o serviço de uma modelo, mais dinheiro ela pode ganhar. É por isso que é importante evitar exposição gratuita da própria imagem. Porque não se compra o que é oferecido de graça. Na dúvida, pergunte a si mesmo/a: VOCÊ COMPRA O QUE ESTÁ DISPONÍVEL DE GRAÇA NO MERCADO?


Mas se a resposta é tão óbvia assim (NÃO), por que os cam sites insistem tanto que as modelos online sejam ativas em social media, e façam publicações recorrentes da sua intimidade gratuitamente?


A exposição gratuita da imagem de uma modelo é favorável para a empresa, pois uma métrica importante para atração de publicidade é o número de visualizações de um site. No entanto, não há vantagens para a modelo, que pode vir a ter seu futuro comprometido, em termos pessoais e profissionais.




Por que o pensamento crítico é ferramenta fundamental para a modelo online (e para os usuários)?


Tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal, conhecer as operações (invisível) do mercado em que se trabalha e pensar de modo crítico tornam-se ferramentas fundamentais para a modelo online aprender a como se posicionar no setor. Posto isso, é importante ter em mente que as as modelos encontram-se em posição hipervulnerável, uma vez que a atividade não é regulamentada por lei, tampouco há qualquer organização social para ampará-las.


Desde o surgimento da Indústria de Live Cams, há mais de 20 anos (1999), a NCP é o primeiro projeto da Indústria Adulta focado na contenção de danos deste setor, que naturaliza tanto a objetificação quanto a desumanização do outro como ritualidades cotidianas.


Nesse contexto específico, o conceito de “objetificação” refere-se à redução das modelos online à ação sexual instantânea na webcam, e “desumanização” ao aniquilamento dos direitos humanos essenciais em prol da satisfação imediata do usuário durante as sessões de videochat. Tratam-se de processos que banalizam aspectos emocionais, subjetivos e psíquicos do indivíduo de modo que apenas a sua serventia importe. Uma característica determinante tanto da objetificação quanto da desumanização do outro é a invalidação dos pensamentos e dos sentimentos. Não se espera que um objeto sinta e pense, mas sim que cumpra a função para a qual foi criado. No caso das pessoas apresentadas como mercadoria, a expectativa é a de que sejam obedientes, passivas e (digam estar) felizes — independentemente da forma como a publicidade do setor as anuncia. No geral, os profissionais de propaganda, publicidade e marketing são bons naquilo que são contratados para fazer: gerar lucro para os donos da empresa. Custe o que custar


O termo “ritualidade cotidiana" diz respeito ao padrão de ações concretas, empreendidas em ocasiões particulares, com determinada finalidade, configurando, assim, poderoso vetor de validação dos comportamentos e dos valores de uma comunidade (MAGOSSI, 2020).


No caso dos sites de webcamming no Brasil, os empresários do setor condicionam o cadastramento das modelos nos sites à condição de cederem o uso ilimitado, irrevogável e infinito de todas as suas fotos e vídeos, inclusive das sessões privadas, para a empresa e seus associados usarem e lucrarem como bem entenderem. Ou seja, esses empresários-mercenários não lucram apenas com um percentual significativo daquilo que é pago pelos usuários para se relacionarem com as modelos e com as parcerias feitas com as empresas dos "brinquedos interativos". Eles têm um estoque inesgotável e gratuito de vídeos das mulheres que podem ser comercializados da forma que bem entenderem, sem a necessidade de que elas concordem, sejam consultadas e nem sequer informadas. Esse é um modelo de negócios obscuro, cuja taxa de lucro dos empresários tende ao infinito.


Todas as articulações empresariais bizarras que acontecem nesta indústria são conscientes e deliberadas. Nada é por acaso. Não é à toa que os empresários-mercenários do setor costumam ser bastante discretos e reservados com a sua própria imagem, nome e identidade. Preferem o anonimato empresarial em vez da fama. Afinal, quem gostaria de estar associado publicamente a esse tipo de “empreendimento”?


Este fenômeno é compreendido pelas ciências sociais aplicadas como violência simbólica ou violência invisível (TRIVINHO, 2007). O conceito refere-se a um tipo de violência que não é física (concreta), mas sensível (subjetiva). O que significa que quando somos violentamos de modo invisível ou simbólico logo sentimos, porém, dificilmente comprovaremos a violência, pois não há armas de fogo ou ameaças físicas.

No entanto, a lógica da violência invisível é a mesma da violência física, que, por sua vez, é a mesma da guerra: domesticar o indivíduo a partir do medo de perder aquilo que é indispensável para a sua sobrevivência (VIRÍLIO, 1996).


Se você já passou por qualquer situação em que sua dignidade tenha sido desconsiderada, então você já foi vítima de violência simbólica/invisível. No entanto, como não houve agressão física ou armas de fogo, você deve ter ouvido "Ahhh, mas ninguém colocou uma arma na sua cabeça! você que deixou acontecer". Em geral, o agressor procura vítimas hipervulneráveis que consentem a violência simbólica/invisível justamente porque encontram-se em estado de hipervulnerabilidade. Entretanto, os movimentos do agressor são conscientes. A violência não deixa de existir — e muito menos de machucar — só porque não é física.


No caso das modelos online, caso não assinem os contratos leoninos cedendo à plataforma a permissão legal para que seja feito uso do seu conteúdo — da forma como for conveniente à empresa —, elas simplesmente estarão impedidas de trabalhar no mercado.


Assim, levantamos as seguintes questões para as modelos online:

  • Você se orgulha da forma como você mesma está veiculando — ou cedendo a alguém o direito de veicular — a sua própria imagem?

  • Se você mudar de ocupação profissional no futuro, será possível remover o conteúdo postado?

Caso a resposta tenha sido negativa para as duas questões acima, levantamos uma terceira:

  • Seria possível adaptar o conteúdo que você está produzindo hoje para algo que também seja rentável para este mercado, mas que te deixe mais confortável com você mesma?

No caso os usuários dos cam sites brasileiros, sugerimos que a comunicação seja direta com a modelo online. Não é aceitável em uma sociedade que se enxerga como capitalista civilizada que a única possibilidade de se trabalhar neste setor seja sendo obrigada a "concordar" com um contrato leonino, abusivo, e que condiciona as modelos a terem que ceder todos os direitos de uso da sua própria imagem aos proprietários dos meios de produção (cam sites) para o resto das suas vidas, caso queiram trabalhar.



Leia mais em : https://avn.com/business/articles/technology/op-ed-priscila-magossi-on-whats-in-a-price-890464.html




Bibliografia


BAUMAN, Zygmunt. Does ethics have a chance in a world of consumers? Harvard University Press, 2009.

LACAN, Jacques. The ethics of psychoanalysis 1959-1960: The seminar of Jacques Lacan. Routledge, 2013.

MAGOSSI, Priscila. Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço. Novas Edições Academicas, 2020.

MAGOSSI, Priscila. Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual: as ritualidades do ciberespaço e a aceleração da vida cotidana. In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual. Eugênio Trivinho (Organizador). CENCIB, AnnaBlume. 2017.

SMITH, Adam. The Wealth of Nations: An inquiry into the nature and causes of the Wealth of Nations. Harriman House Limited, 2010.

TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007.

VIRILIO, Paul. Velocidade e política. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.



________________

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em específico. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular a reflexão e o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que — até o presente momento — não há (1) legislação específica em vigor que proteja as trabalhadoras e/ou (2) órgão responsável pela contenção de danos [humanização] do setor.

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