turquesa08-05.jpg
Buscar
  • newcammingperspective

NCP revela operações (obscuras) da indústria adulta digital

Atualizado: 10 de fev.

Você sabia que todas as plataformas de camming e de venda de conteúdo adulto condicionam o cadastramento das modelos à obrigatoriedade de cederem os direitos autorais de todo o conteúdo produzido e publicado no site por elas para a empresa?


Isso significa que os empresários ocultos dessas empresas podem usar e lucrar à vontade com as suas fotos e vídeos, para sempre, do jeito que bem entenderem, sem te dar qualquer satisfação!


Significa também que você não ganhará nenhum único centavo com isso e não será nem ao menos informada sequer sobre onde estão publicando suas fotos e vídeos, incluindo nas sessões privadas! Tudo é gravado e tudo pertence ao proprietário oculto da empresa!



A indústria adulta digital é formada por sites de vendas de conteúdo (“packs”), sites de live cams (interações ao vivo) e sites de pornografia (gravações eróticas). No Brasil, temos visto um aumento exponencial de reportagens sobre o setor adulto desde a epidemia da Covid-19. Essas reportagens nacionais têm focado na possibilidade de aumento de renda durante o período de isolamento. Entretanto, quase nunca contam como efetivamente funciona o mercado. Raramente falam sobre as consequências de doar direitos de uso sobre a própria imagem às indústrias do setor adulto.


Mia Khalifa que o diga! Em suas entrevistas, Khalifa deixa claro que não é que o seu contrato era especificamente horrível, mas que TODOS os contratos do setor funcionam exatamente do mesmo jeito: não há outra opção a não ser ceder os direitos autorais para as empresas lucrarem e fazerem o que quiser com a imagem da mulher para o resto da vida dela! Os principais diferenciais de Khalifa estão na sua coragem em expor a toxicidade da indústria adulta digital e na repercussão que seu caso, de fato, teve no mundo todo.


O projeto New Camming Perspective (NCP) foi fundado com o objetivo de tratar justamente dessas questões propositalmente ignoradas. Afinal, é uma catástrofe que uma indústria deste porte seja controlada por um punhado de empresários invisíveis, que agem em regime de colaboração entre si e estejam brutalizando os afetos e radicalizando a sexualidade sem que ninguém perceba.


Portanto, o papel da NCP é oferecer informações que são disfarçadas pelos departamentos de marketing, gerentes de site e representantes de marca, uma vez que não é do interesse de nenhuma empresa dar conhecimento ou estimular o pensamento crítico em seus “colaboradores”, que não estão protegidos(as) por legislação alguma. Estamos lidando com um verdadeiro faroeste digital, no qual vale tudo, menos associar o proprietário à sua empresa!


O marketing elaborado pelas empresas do setor transmite a falsa impressão de que "vender packs" ou “interagir online” é algo simples e muito rentável. Cinicamente associam a venda por 3 dólares de um ativo valiosíssimo (a intimidade da mulher) com “empoderamento feminino”, “empreendedorismo” e “liberdade financeira”. Nada poderia estar mais distante da realidade.


O acesso à informação correta é fundamental para não se cair em armadilhas, pois as empresas tentam a todo custo confundir as modelos. Tentam levá-las a acreditar que são ‘empreendedoras independentes’, quando, na verdade, acabam tendo que se submeter a inúmeras regras ilógicas e injustas que só servem para mantê-las dependentes, domesticadas e adoecidas, enquanto se apropriam de um % altíssimo (entre 50 e 88%) do resultado do seu trabalho. Isto sem contar um dos principais filões deste mercado que é a condição imposta nas letras miúdas dos termos de uso desses sites: as modelos são obrigadas a doar todos os direitos autorais sobre suas fotos e vídeos se quiserem trabalhar. Obrigar a doar é uma contradição absurda.


Por isso, é fundamental que a mulher reflita sobre as consequências futuras da sua escolha quando opta por trabalhar neste setor. Com acesso à informação, cada pessoa pode decidir de forma consciente que tipo de conteúdo produzir para não se arrepender depois.


Assim, é preciso ter em mente que a internet é um ambiente no qual muitas das nossas escolhas são irreversíveis e podem ter consequências eternas. Portanto, não devemos acreditar no verniz de glamour produzido por este conglomerado empresarial com o objetivo de ludibriar as mulheres. Ao invés disso, devemos fazer escolhas muito conscientes e apenas após conhecermos todas as consequências (positivas e negativas).


Não ignore o fato de que algumas escolhas podem trazer consequências desagradáveis, pois isso não faz com que essas consequências deixem de existir, pelo contrário, apenas favorece a manipulação de quem conhece o cenário por completo. Informe-se!


_______________________________________________


PRISCILA MAGOSSI é jornalista, Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pesquisadora da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber), e fundadora do projeto New Camming Perspective (NCP): um projeto voltado à denúncia e à contenção de danos da indústria de webcamming.



Todos os conceitos desenvolvidos pela pesquisadora Drª Priscila Magossi (PUC-SP/ABCiber/NCP) são de autoria própria e estão protegidos pela lei dos direitos autorais (Lei 9.610/98). Isto é, não se trata de uma publicação destinada a qualquer pessoa física e/ou jurídica, mas de uma pesquisa científica sobre o modus operandi da indústria adulta digital.


Qualquer plágio sobre este trabalho, por parte de qualquer pessoa física e/ou jurídica estará sujeita às penalidades da lei caso insista em fazer uso dos conceitos originais propostos neste estudo sem menção à autora e/ou pagamento de royalties.


Drª Priscila Magossi é assessorada juridicamente e representada legalmente por suas advogadas Drª Izadora Barbieri (OAB/SP n°371.254) e Drª Brenda Melo (OAB/MG nº189.092).


111 visualizações0 comentário